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Noiva de Follmann diz: “Medo de morrer era tão grande que ele não relaxava”

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Thais Carvalho Diniz

Do UOL

Na antessala do quarto de um hotel na zona oeste de São Paulo, Jakson Follmann, 24, natural de Alecrim (RS), recebeu a reportagem do UOL acompanhado do habitual chimarrão. Na cuia de madeira, a bomba para a bebida tinha as iniciais do atleta e da noiva, Andressa Perkovski, gravadas em dois corações.

Há quase cinco anos juntos, o casamento no civil estava marcado para o dia 16 de dezembro de 2016 [o religioso aconteceria no final deste ano]. Mas o casal teve que adiar os planos. Follmann foi um dos seis sobreviventes da tragédia com o voo que levava o time da Chapecoense e a imprensa para a Colômbia, em novembro do ano passado.

Andressa e os pais do atleta, Paulo e Marisa, estão sempre juntos e são fundamentais para que o goleiro encare a tragédia e a amputação –abaixo do joelho– da perna direita. Em mais de uma hora de conversa com a reportagem, apesar dos sorrisos e piadas, fica claro que adiar o casamento foi apenas uma curva no longo caminho que têm pela frente. Além da recuperação –o pé esquerdo ainda demanda muitos cuidados– e adaptação à prótese, as lembranças e traumas estão sendo deixados para trás.

Reprodução/Instagram
O casal está junto há quase cinco anosimagem: Reprodução/Instagram

Follmann tinha receio de sair do hospital

Após 56 dias internado –entre Colômbia, São Paulo e Chapecó–, o atleta contou que quando faltavam dois ou três dias para a alta, começou a se questionar se estava pronto para sair do hospital. “Se me der dor, o que vou fazer? Será que vou conseguir suportar a dor em casa? Dei uma surtada nos últimos dias, queria ficar sozinho. Não sabia o que me esperava fora [do hospital]”.

De acordo com Follmann, foi uma vitória sair com esse tempo. A estimativa dos médicos, diante do quadro grave –nove fraturas, incluindo a cervical e duas na face–, era de três a quatro meses. “Consegui superar essa etapa e foi um prazer muito grande sair [do hospital]”.

Andressa conta como lidava com o medo da morte

Questionado sobre o medo de morrer, a resposta veio rápido: “Todo o tempo. Todo instante. Até hoje eu sei da gravidade do que aconteceu comigo. Eu perguntava sobre meu estado de saúde para todo mundo que entrava no quarto, desde a enfermeira até a faxineira”.

Andressa, 24, foi à Colômbia com os pais do noivo e chegou lá o mais rápido que conseguiu, três dias após o acidente. A educadora física fala que Follmann, desde o início, mesmo grogue de remédios, ficava atento a tudo o que acontecia, desde a hora do dia até a medicação que tomava.

Ele acordava durante a madrugada para ficar olhando os aparelhos com batimentos cardíacos, pulso e temperatura para ver se tinha febre. E ainda falava para o meu sogro –que dormiu com ele nos primeiros dias–: ‘pai, fica de olho’. O medo de morrer era tão grande que ele não relaxava

Mesmo assim, o assunto acidente só surgiu quando chegaram em Chapecó, mais de 15 dias depois da tragédia. Segundo Andressa, o noivo não perguntava nada e nem ela nem os sogros o questionaram a respeito. “Um dia, na Colômbia, eu falei para ele: ‘amor, tu é um guerreiro. O Brasil está contigo, o mundo te ama’. Ele me olhou e disse: mas a coisa foi tão grande assim? E aí eu já desconversei”.

Reprodução/Instagram
Follmann ficou internado 56 dias. Destes, 39 no hospital da Unimed, em Chapecóimagem: Reprodução/Instagram

A confusão mental não foi só em relação à tragédia. A sedação e a estadia prolongada em hospitais deixaram o goleiro sem noção dos dias. “Era domingo e eu achava que era quinta. Na Colômbia foi pior. Eu estava usando colar por conta da fratura na cervical, só podia olhar para frente e mal me mexia. No Brasil isso melhorou porque eu recebia muitas visitas”.Além disso, Andressa conta que a janela do quarto do Hospital San Vicente de Paul, em Rionegro, era pequena e ficava longe da cama. Como ele não tinha mobilidade, não sabia quando era dia ou noite.

Escovar os dentes ainda é um desafio

Dar os primeiros passos era, sem dúvida, o maior desejo de Follmann. E já foi realizado. No último dia 6, depois de uma semana de fisioterapia, conseguiu o feito, com uma prótese provisória. Agora, que “só tira a prótese praticamente para dormir”, o desafio é voltar a fazer coisas simples sozinho, como tomar banho. Tudo o que “passava despercebido e faz falta agora”.

Tentei escovar os dentes sozinho ontem [dia anterior a entrevista], mas foi muito difícil. Estou com o andador e não tenho o equilíbrio necessário. Perdi muita massa muscular. Tenho que voltar a fazer academia para recuperar essa forçaO goleiro perdeu cerca de 10 kg

A cada detalhe, uma alegria. Ele diz que se sente uma criança ao reconstruir a vida. “Fico bobo com tudo o que consigo, a verdade é essa. É tudo novo e está sendo bom demais”.

As novas amizades também o estão ajudando. O capitão da seleção brasileira de vôlei paraolímpico, Renato Leite, e Mizael Conrado, vice-presidente do Comitê Paraolímpico Brasileiro, procuraram por ele em Chapecó. “Ficamos uma manhã inteira conversando. Quer dizer, eu perguntando e eles respondendo. Isso me deixou muito tranquilo porque eu estava curioso e ansioso para saber como era ser um protetizado. Tê-los por perto me trouxe paz”.

Nem sempre dá para levar tudo na esportiva

Os momentos de tristeza profunda foram muitos e ainda existem. “Principalmente na Colômbia eu chorei muito. Estava muito emotivo e qualquer coisa desabava a chorar. Mas não cabe a mim ficar jogado em um canto lamentando. Ganhei minha vida de volta, como não vou sorrir? O que aconteceu comigo [e aponta para a perna] é só um detalhe”.

Mas as “reações boas”, às vezes, espantam. Segundo o atleta, as pessoas devem pensar que ele está forçando em dizer que está sempre bem. “Estou levando. Não digo na esportiva porque vão me chamar de louco. Mas estou correspondendo muito bem a tudo e ser assim está ajudando. E se é positivo não tem motivo para mudar”.

A força e semblante sempre bom são de uma vida inteira. Follman conta que os pais dizem que ele sempre foi alto-astral, desde criança. E Andressa confirma. “Vou contar uma coisa: ele dorme e acorda sorrindo todos os dias. A vida inteira. Sempre. Faz piada desde de manhã até a noite”.

 “O Danilo era uma inspiração para o Jakson”

Quando foi resgatado, Follmann disse aos socorristas que era “o goleiro”. Essa informação causou uma confusão e fez com que o nome de Danilo, o goleiro titular da Chapecoense, saísse na lista dos sobreviventes. Parece até que naquele momento ele já sentia falta do companheiro, que era, além de tudo, uma inspiração profissional.

De acordo com Andressa, foi por ele que o noivo perguntou no primeiro momento. “Ele era apaixonado pelo Danilo, estavam sempre juntos, compartilhavam momentos…. O Danilo era uma inspiração para o Jakson, então eu sabia que a minha resposta ia fazê-lo sofrer, como sofreu e sofre até hoje”.

Para Follmann a saudade é imensurável de todos os colegas de clube. Mas, claro, existem nomes –além de Danilo– que o tocam mais, como Josimar (volante), Matheus Biteco (volante) e Thiaguinho (atacante), os “irmãos” para além dos portões da Chapecoense.

“Tenho uma imagem muito bonita e positiva de todos eles na minha cabeça. Estávamos em um momento feliz e é isso que vou levar para o resto da minha vida. Agradeço a Deus por não ter visto nenhum amigo meu morrendo, não ter enxergado nenhum corpo. Isso me ajudou muito”.

Quando se deu conta da amputação

Follman diz que nunca quis saber como estava a perna amputada. “Nem passou pela minha cabeça o tanto que tinha perdido”. E Andressa fala que, ainda na Colômbia, o noivo tinha a dor do membro fantasma. “Ele reclamava que doía o pé direito e eu pensava ‘como, meu Deus?'”.

Ele só foi ter noção da real situação na primeira sessão de fisioterapia, em São Paulo. “A fisioterapeuta pediu para eu sentar. Olhei e deu aquele susto, mas…. Até nisso tive uma reação boa”.

Trauma de avião

Desde o acidente, o goleiro já andou de avião cinco vezes. Entretanto, em apenas uma delas deu uma baqueada. “Quando voltei do Rio de Janeiro [ele, Neto e Alan foram assistir o amistoso entre Brasil e Colômbia, no dia 25 de janeiro]. Foi o primeiro voo que peguei à noite e como o acidente aconteceu à noite, confesso que veio o pensamento. Mas tenho que ser forte, sei que não vai ser a última vez que vou voar. Claro que não é fácil, mas tem que encarar”, afirmou.

Futuro como atleta

Vou ser sempre um atleta, um goleiro

Dos três jogadores sobreviventes, Follmann é o único que não pode voltar a jogar pela Chapecoense. Neto e Alan, inclusive, já voltaram a frequentar a Chapecoense e, aos poucos, voltam a praticar exercícios. E apesar de todo otimismo, ele confessa que foi muito triste se dar conta de que “o sonho acabou”.

“Sou atleta ainda. Existem muitas modalidades paraolímpicas que eu vou praticar, pode ter certeza disso. Só preciso respeitar meu corpo, entender o que me faz bem e não vai doer. Hoje eu estou limitado, não jogo mais futebol, que era minha profissão, mas não vou virar as costas para o esporte. Jamais”

Quanto aos planos do casamento, segundo Andressa, eles estão a mil. O noivo é mais cauteloso, mas confirma. “Primeiro tenho que caminhar bem, né? Sem ajuda de muleta e andador. E aí, quando eu estiver independente, a gente vai pensar no casório”.

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